Carisma

Pe. Calisto Vendrame
(em memória)

Os carismas são dons do Espírito para o bem do povo de Deus. Eles têm por finalidade a construção e o crescimento da comunidade e marcam profundamente aquele que os recebe, arrancando-o do estreito círculo de uma vida prisioneira de projetos pessoais para lançá-lo na grande aventura da história da salvação e no seguimento de Cristo.

O fundador de uma comunidade religiosa é sempre um carismático suscitado pelo Espírito, capaz de captar o desígnio do Pai nos sinais do tempo e torná-lo realidade. É um homem de fé e de grande esperança, de visão e de coragem. Ele avança e arrasta. Torna-se um rio que vence todos os obstáculos, move muitas águas, abre novos caminhos e aponta a direção.

Voz do Espírito

No tempo de São Camilo eram fortes os apelos que vinham do mundo dos doentes. Muitos cristãos os terão ouvido, mas, como o sacerdote levita na parábola do bom samaritano, não perceberam a voz de Deus que fala no coração dos acontecimentos e seguiram seu caminho, levados por muitos compromissos e projetos pessoais. Camilo, sensível à voz do Senhor, que desde a conversão o colocou no caminho do amor, escutou com compaixão aqueles apelos e se colocou inteiramente a serviço dos doentes. Tornou-se, assim, o bom samaritano, a exemplo de Cristo, cujo amor misericordioso ele mesmo havia experimentado.

Por alguns anos, Camilo lutou sozinho para mudar a situação, recorrendo inclusive a maneiras fortes com os colaboradores, mas sem obter grandes resultados. Não tinha ainda entendido que não se pode impor aos demais o que nós entendemos por uma luz interior. O amor não se impõe. Foi numa noite de meados de agosto de 1582 que surgiu a solução: Por que não reunir os homens bons e piedosos, que não faltavam entre os servidores, embora isolados e sem estímulo, e formar com eles uma comunidade de pessoas que se amem como irmãos e se dediquem ao serviço dos doentes por puro amor, com coração de mãe, seguindo as inspirações do Espírito Santo? Era a luz divina que queria fazer de Camilo um camiliano, pai e irmão de uma numerosa família religiosa. Era o carisma de fundador.

Naquele momento de graça, Camilo intuiu claramente a solução, mas sem ter ainda ideia de como a pequena planta se desenvolveria em ordem religiosa que, após quatro séculos, continua a crescer e estender-se com a vitalidade da árvore plantada à margem do rio, cujas raízes afundam na Palavra de Deus.

Um dom maravilhoso

Camilo era tão apaixonado pelo carisma da misericórdia, que ao falar, se tornava poeta e não conseguia esconder certa ufania: Recebemos um enorme cabedal de graça do Espírito Santo. Com o serviço aos doentes temos na mão a pedra preciosa da caridade, da qual fala o evangelho que quem a encontra vende tudo o que possui para adquiri-la. Porque é esta que nos transforma em Deus.

Na primeira constituição, Camilo exprimiu-se com palavras tão fortes e carregadas de significado que quisemos mantê-las intactas como preâmbulo da nova: “Se alguém inspirado por Deus quiser exercer as obras de misericórdia corporal e espiritual segundo o nosso instituto, saiba que deve morrer a tudo, especialmente a si mesmo, a fim de viver somente para Jesus crucificado, de modo tal que já não se preocupe nem de morte nem de vida, nem de doença, nem de saúde (…) e considere grande vantagem morrer por Cristo Jesus Crucificado, Senhor nosso”.

Na carta-testamento, enviada poucos dias antes de sua morte a todos os coirmãos da Ordem, manifestou ainda toda a sua admiração, gratidão, alegria e entusiasmo pelo carisma, esse “tão grande talento que o Senhor colocou em nossas mãos”. Ele vê o carisma do instituto no centro do evangelho e no coração da igreja: O serviço aos doentes é “tão conforme ao evangelho e à doutrina de Cristo, Nosso Senhor, que tanto o exalta seja no Antigo como no Novo Testamento e com o exemplo de sua santa vida, cuidando dos enfermos e sarando toda sorte de enfermidades”. Cristo uniu indissoluvelmente o cuidado pelos enfermos à pregação da boa nova e conferiu à igreja essa missão: “Pregai o evangelho…, curai os enfermos”.

Cresce e se Incultura

O carisma dos fundadores é transmitido aos discípulos chamados pessoalmente pelo próprio Deus. Estes empenham-se em vivê-lo e aprofundá-lo, mas também em renová-lo para tê-lo sempre vivo e atual, capaz de responder aos apelos de todos os tempos e de todos os lugares, em comunhão com a Igreja e em sintonia com a sociedade. Quando muda o ambiente também os organismos vivos devem mudar sob pena de virar fósseis. É questão de identidade e de fidelidade à própria missão: mudar para continuar sendo os mesmos.

Após o concílio Vaticano II, para serem fiéis a si mesmos, ao carisma e ao homem, os camilianos procederam a uma reflexão, revisão e reelaboração da própria constituição. A nova constituição abre-se com uma reflexão teológico-pastoral sobre o carisma. Este vem apresentando como o dom de testemunhar ao mundo o amor sempre presente de Cristo para com os enfermos, dado por Deus à nossa Ordem, parte vinha da Igreja, por meio de São Camilo.

Este amor tem como fonte o próprio Deus, que se manifestou plenamente em Cristo e foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo. O artigo 11 exprime a nossa resposta: “Nós acreditamos no amor e, movidos pelo Espírito, abraçamos o carisma próprio da nossa Ordem e queremos viver dedicados unicamente a Deus e a Jesus Cristo misericordioso, servindo os enfermos, em castidade, pobreza e obediência.

Concretamente, o nosso carisma exprime-se nas obras de misericórdia aos doentes, assumindo os serviços do mundo da Saúde. Colocamo-nos a serviço da pessoa do doente no seu contexto e na globalidade do seu ser, prestando-lhe os cuidados necessários segundo suas necessidades e nossas capacidades e competências. Portanto, segundo as necessidades do mundo da Saúde e os dons próprios de cada coirmão, existirão camilianos enfermeiros, capelães de hospitais, médicos, psicólogos, peritos em pastoral da saúde, em sagrada escritura, em teologia moral, em antropologia, em administração hospitalar. Numa palavra, em todas as ciências humanas e teológicas, que de alguma forma ajudam a servir melhor o enfermo e a criar ao redor dele, no vasto mundo da Saúde, um clima humano e cristão.

Padres e Irmãos: uma só missão

Para um serviço completo num campo tão vasto como é o mundo da Saúde, e em favor do enfermo que tem tantas e tão diferentes necessidades, Camilo quis envolver, na mesma missão, clérigos e leigos, com iguais direitos e deveres, chamados por ele padres e irmãos. Era uma novidade para aquele tempo de excessivo clericalismo e isto custou-lhe não poucas incompreensões. Na carta-testamento, Camilo retornou e insistiu com seus filhos para que não cedam: “Nem precisa olhar para os outros institutos religiosos na igreja de Deus que não caminham por esta estrada, porque seus institutos não são comuns (a clérigos e leigos) como o nosso”.

Antes de tudo o Amor

Toda a estrutura jurídica e todos os estudos e especializações de pouco serviriam se não fosse o espírito do bom Samaritano, “movido de compaixão”, a animar a vida e as atividades de cada religioso e de toda a Ordem.

Camilo, ao elaborar as “normas e modos que se deverão observar nos hospitais, no atendimento aos pobres enfermos”, assim inicia: “Em primeiro lugar, cada um peça ao Senhor que lhe conceda afeto materno em relação ao próximo, para que possamos servi-lo com muito amor, tanto na alma quanto no corpo, pois com a graça de Deus desejamos servir todos os enfermos com o mesmo carinho que tem uma Mãe ao assistir seu único filho enfermo”.