Espiritualidade

Espiritualidade

O que é espiritualidade?

Todos os cristãos recebem um dom comum, de fonte, que engloba todos os outros dons: o Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho, que pode se chamar de Espírito de Jesus, Espírito do Pai, Espírito do Amor, Espírito da Verdade. Na diversidade de dons e carismas é sempre este único e mesmo Espírito que opera tudo em todos (cf. 1Cor 12).

Espiritualidade é aquela moção que está por trás do nosso agir, é aquele conjunto de valores e, quiçá, contravalores nos quais cremos sinceramente. Eles ditam nosso comportamento e nossa conduta, determinam tudo que somos diante de Deus e de nossa realidade. Todo ser humano tem sua espiritualidade, mesmo quem não seja cristão e nem acredite em Deus, pois o elemento religioso e transcendental e inerente à natureza humana.

Espiritualidade cristã

A espiritualidade cristã pressupõe, necessariamente, a fé em Jesus Cristo, plenificado no desprendimento e na doação em prol de sua missão de amor. “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20). Tal espiritualidade consiste em viver como Jesus viveu, em comunhão profunda com Deus, guiado pelo Espírito Santo.

A espiritualidade cristã é uma só: viver o Cristo em nós, sob a graça de Deus na força do Espírito, numa perfeita relação íntima, pessoal e livre, ou seja, viver em tudo o amor a Deus e ao próximo, numa atitude solidária que se faz serviço junto aos mais vulneráveis, de modo especial, os doentes.

Espiritualidade camiliana: fontes bíblicas

Quando lemos e estudamos a vida e obra dos santos e santas observamos condutas invejáveis e atitudes plenas de sentido, a saber, profunda intimidade com Deus, oração contínua, amor pela Igreja, participação diária na Eucaristia, devoção à Nossa Senhora, leitura e meditação da Palavra de Deus, fonte de espiritualidade. É, precisamente, no coração do Evangelho que nasce os fundamentos da espiritualidade camiliana. Por isso, nossa reflexão – sem a pretensão de esgotar a profundidade do tema – tem como finalidade evidenciar, embora de maneira sintética, a essência da espiritualidade e os fundamentos bíblicos da espiritualidade camiliana.

A espiritualidade é dom de Deus, vida vivida no Espírito e princípio de unidade entre o Pai e o Filho. Esse princípio unificador pode ser denominado, também, de Espírito de Jesus, Espírito do Pai, Espírito do Amor e Espírito da Verdade, pois o Espírito sopra onde quer e carrega aqueles que se deixam levar (cf. Jo 3, 8). Cabe aqui destacar que a espiritualidade não está ligada diretamente às devoções populares, porque a autêntica espiritualidade não se traduz em piedade popular.

Em outras palavras, a espiritualidade nasce da ação do Espírito em nós e, desse modo, é a vida no Espírito e como o Espírito, uma vez que o Espírito eleva ao máximo o que há de mais humano em nós. A espiritualidade verdadeira é expressada, necessariamente, por meio dos valores, a saber: a humildade e a caridade. Esses valores norteiam o nosso comportamento e a nossa conduta, determinando, assim, tudo que somos e fazemos diante de Deus e de nossos irmãos.

Outrossim, a espiritualidade é entendida como a única e pessoal resposta do indivíduo a tudo o que o chama à integridade e à transcendência. Decorre disso que, consequentemente, emerge a espiritualidade cristã, maneira de viver sob a ação do Espírito, isto é, uma existência totalmente crente, em que a sombra do Espírito de Deus nos cobre, fazendo com que transpareça em nossas ações a vontade de divina.

A vontade de Deus revela-se nas pessoas, de modo especial, no relacionamento pessoal e íntimo, ou seja, a pessoa faz uma experiência de fé. Na experiência de Camilo de Lellis revelou-se uma espiritualidade cristocêntrica, dando sentido à sua vida e à sua missão. Esse cristocentrismo é prático, fazendo o que Cristo fazia pelos doentes: acolher, curar, libertar e cuidar com afeto e carinho materno.

A humanidade de Cristo é o cerne da espiritualidade camiliana. Dita humanidade é tocada, amada e servida na humanidade sofredora dos doentes, que são concebidos como “os membros sofredores de Jesus Cristo”, constituídos em dignidade real, que ele, Camilo, e os seus seguidores servem com amor e fidelidade ao mandato de Cristo.

A vida de Camilo de Lellis era orientada e alicerçada na Sagrada Escritura. Destacamos aqui o primeiro fundamento da espiritualidade camiliana brotada do coração do Evangelho, “Estive enfermo e me visitaste” (Mt 25, 36). Se pudermos sintetizar, a espiritualidade camiliana, numa só palavra, seria: a misericórdia. Porque Camilo foi alvo da compaixão divina, tornando-se, assim, um instrumento de misericórdia para o seu próximo. A sua ação humanizadora mostrou-se, sobretudo, no serviço ao Cristo crucificado nos doentes, nos pobres, nos sofredores e nos necessitados, pois eles “são os nossos senhores e patrões” e neles vemos e servimos o próprio Cristo.

O artigo 6 da Constituição dos Religiosos Camilianos nos indica o fundamento de tal despojamento e amor aos doentes “Este amor ‘foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado’ (Rm 5, 5). O Espírito nos impele a cooperar para que o desígnio da salvação iniciado por Cristo se realize e estimula à comunhão fraterna na Igreja, para que todos se prestem serviços uns aos outros, segundo a diversidade dos dons que receberam”. Camilo antecipou os tempos e fez a diferença, ou seja, realizou uma ação humanizada no mundo da Saúde, resgatando a essência da espiritualidade evangélica no que diz respeito ao cuidado dos doentes, como fez o bom samaritano. Esta passagem é o segundo fundamento bíblico, de grande relevância da espiritualidade camiliana (cf. Lc 10, 25-37).

Em suma, a fonte da espiritualidade camiliana é a presença de Cristo nos doentes e naqueles que os assistem em Seu nome; uma vida centrada no encontro pessoal com Jesus, que nos ensina a viver nossa vocação na escuta à Palavra de Deus; e a vivência comunitária sob a assistência do Espírito Santo. A identificação com Cristo e sua missão torna-nos criativos e responsáveis. Assim, não precisamos de alguém que nos mande fazer o bem ou praticar a caridade: basta-nos olhar o exemplo de Cristo (parábola do bom samaritano). Seguir Cristo misericordioso; identificar-se com Ele: essa é a missão de todo cristão batizado.

[Pe. Francisco de Lélis Maciel, M.I. e Pe. Gilmar Antônio Aguiar, M.I.]